O volume que, em italiano, leva o nome de Sconfinamenti (org. Stefano Beggiora, Mario Giampà, Alfredo Lombardozzi e Anthony Molino. Mimesis, Milano-Udine: 2014) faz parte da coletânea Semiótica e Filosofia da Linguagem e trata de um assunto que está na crista da onda: quais são as relações (de semelhanças e de diferenças) entre disciplinas limítrofes, e no que podem umas se enriquecer com as outras? Da relação entre literatura e as outras disciplinas tratou Remo Ceserani em seu livro Convergências (no prelo pela EDUSP); trata-se, em particular, agora, de analisar as relações entre duas disciplinas contíguas, a antropologia e a psicanálise, depois da aproximação antropologia/linguística feita nos trabalhos de Lévi Strauss e Jakobson, e lembrando uma das anotações mais interessantes de Mikhail Bakhtin (que abre e sintetiza, teoricamente, o livro):

“A vida mais intensa e mais produtiva da cultura se desenrola justamente nos confins de seus respectivos campos, e não onde esses campos se fecham em sua especificidade própria”.

Ou seja, é importante incrementar as transferências interdisciplinares, retraçar os limites, procurar denominadores comuns. Em particular, entre antropologia e psicanálise, tem-se assistido a uma história de atração recíproca. A psicanálise — baste lembrar Freud de Totem e Tabu — indo do individual ao coletivo, conservando porém seus próprios instrumentos analíticos, e a antropologia — baste lembrar Malinóvski — valendo-se dos resultados das pesquisas psicanalíticas, ou discutindo-as à luz de suas experiências de campo ou de seu conhecimento de culturas remotas.

Justamente, um dos nós da discussão antropologia/psicanálise diz respeito ao peso e ao papel da cultura no comportamento humano, e aqui vêm as considerações do autor do ensaio, que é antropólogo cultural. Grande teórico da universalidade da natureza humana, cujas componentes biopsíquicas, a libido e os complexos determinariam os modos de agir do ser humano, Freud não seria diferente dos grandes teóricos do universalismo antropológico, a não ser que as generalizações de ditos antropólogos se fundavam em um intenso trabalho comparativo que confrontava as culturas existentes, enquanto Freud trabalhava com um único grupo social: os vienenses. Daí ser o método comparativo o aporte mais importante da antropologia para a psicanálise, para verificar a universalidade ou a relatividade dos comportamentos e o papel que, quanto a eles, cabe à hereditariedade ou ao ambiente, à natureza ou à educação.

Para Freud, as leis do comportamento humano pouco teriam a ver com a influência do contexto sócio-cultural, sendo que o que é determinante para as formas da cultura são as pulsões inconscientes que aparecem nas diversas culturas e nos diferentes tempos históricos. Entre os vários exemplos, veja-se o caso da “possessão” que, para nós, hoje, nasce da vida interior do indivíduo. Para Freud, a possessão pode traduzir-se como o recalcado que retorna. Ele, entretanto, não releva o fato que o recalcado retorna, na possessão, segundo modalidades diferentes, de acordo com as diferentes culturas.

Na possessão espírita, por exemplo, é o resultado do encontro sugerido e orientado “por um esquema cultural extraordinariamente articulado da parte obscura do possuído, com o caráter, a história e o destino da alma do defunto, impressos traumaticamente na memória coletiva e transformados em afabulações coletivas e narrações míticas: essas crenças produzem a possessão e, de qualquer modo, determinam sua forma específica”.

“Quando muda o contexto cultural e o sistema de crenças”— argumenta Domenico Scafoglio em seu ensaio publicado em Desconfinamentos — “a possessão se torna outra coisa: possessão demoníaca, dionisíaca, tarantismo, e assume outras formas particulares no pentecostalismo, no candomblé etc. Se é verdade que todas essas formas de possessão podem advir da mesma matriz psicológica, seu significado e sua função, entretanto, não podem ser achatados a uma base clínica comum: as diferenças não são superficiais, mas essenciais, na medida em que resultam de percursos diferentes e produzem efeitos diferentes, quando não opostos.”

Da pouca atenção que Freud deu às diferenças das culturas derivam outras consequências que lhe são imputadas pelos antropólogos, sendo as principais a exagerada importância que ele deu aos condicionamentos biopsíquicos e à hereditariedade e o peso enorme atribuído à infância na formação do caráter.

À origem da cultura, Freud dedicou Totem e Tabu (1913) que, analisado pelos antropólogos, apresentou certa falta de fundamentação documentária. A trama da obra, como se sabe é a seguinte: o pai originário monopoliza as mulheres do grupo: os filhos se rebelam, matam-no e devoram-no, assimilando suas qualidades. Depois, movidos pelo remorso e pelo senso de culpa, reprimem o desejo sexual para com suas próprias mães e irmãs e criam o totem, o símbolo animal do pai. Sobre a proibição do incesto, a exogamia e o totemisto é fundada a organização social, baseada na repressão dos instintos.

O complexo de Édipo, segundo Freud, é uma repetição virtual desse parricídio. O pai que monopoliza o amor da mãe, o amor/ódio (ciúme) na relação filho/pai; o desejo que o pai morra e o senso de culpa que disso deriva; a interiorização do princípio da autoridade encarnado no pai, com a conseguinte repressão da vida dos instintos, indispensável para a socialização.

Por estar baseado nos estudos já superados de James Frazer e de Robertson Smith, Totem e Tabu não convenceu filogeneticamente, sendo que a proposta mais válida permanecia a da ontogênese edípica da cultura, mas, para tanto, era necessário demonstrar a universalidade do complexo de Édipo e do “período de latência”, em que o menino recalca o desejo sexual pela mãe (dos quatro ou cinco anos até a puberdade). É aí que entram em cena os antropólogos britânicos, especialistas em diversidade cultural, e, em particular, o polaco Malinóvski, que se sente atraído pelas análises de Freud, e, embora aprovando a tese da existência do complexo de Édipo, descobre que em outras culturas, entre os trobriandeses (habitantes da ilha Trobiand, na Austrália), por exemplo, as pulsões hostis se dirigem ao tio materno e não ao pai, e os desejos incestuosos dirigem-se à irmã. Isso, num certo sentido, revira a proposta de Freud: o complexo de Édipo não é o fundamento da cultura mas é, ele mesmo, um produto da cultura. Da mesma forma, Malinóvski tentou demonstrar que nem em todas as sociedades as fases do desenvolvimento infantil estão presentes tais como as apresentou Freud em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905).

Já a antropologia americana, culturalista e relativista, parece mover-se, — apesar de suas pequenas aberturas para a psicanálise— numa direção oposta ao biologismo e ao universalismo, enfatizando o determinismo cultural. Vejam-se as discípulas de Franz Boas, Ruth Benedict e Margareth Mead. Esta última, além de corroborar que o complexo de Édipo não é universal, ainda certificou-se do seguinte: a) não é o psíquico que determina o cultural, mas o contrário; b) a cada tipo de cultura correspondem as respectivas estruturas psíquicas; c) a hereditariedade não determina a formação dos modelos de comportamento das sociedades. Em particular: os homens não são sempre mais ativos que as mulheres, em muitas sociedades eles se portam como as mulheres dos outras localidades.

Karen Horney (1885-1952), alemã naturalizada americana e psicanalista neofreudiana, ao estudar as neuroses do homem americano, chegou às seguintes conclusões: a) a cultura não deriva dos instintos, é antes a vida das pulsões e toda sua história evolutiva que é influenciada pela cultura; b) o mundo é uma pluralidade de culturas; c) não é apenas a infância que influencia o desenvolvimento psíquico do homem, mas também as condições da sociedade em que vive.

Há, entretanto, adesões mais concretas às teorias freudianas. Embora recusado em termos de filogenia, no plano ontogenético o complexo edipiano é, hoje, juntamente com a interdição do incesto, confirmado como estrutura universal. G. Roheim, estudando in loco na ilha de Normanby e retomando a questão levantada por Malinóvski das crianças trobriandeses, mostrou que o complexo avuncular é um derivado do complexo edípico. Outra confirmação da importância da infância na formação do adulto fornecida por Roheim é dada pela visão que ele tem da cultura: “uma tentativa de a criança reunir-se à mãe através das ligações libídicas com o grupo”, superando o trauma do nascimento e a angústia da separação.

Partindo do conceito freudiano de sublimação (criação de formas culturais  como efeito do deslocamento de energias), chega-se à conclusão que toda a sublimação é cultura (no sentido de civilização), um modo oblíquo de realizar os sonhos infantis.

O trabalho do psicanalista, diz Roger Money-Kyrle, deveria ser o de estabelecer quais fatores levantar e focalizar; o do antropólogo, de determinar seu peso relativo e assim formular leis sociológicas válidas para o futuro.

Na França, a colaboração graças à dupla Lévi-Strauss/Lacan, devedores, ambos, da linguística estrutural, foi das mais teoricamente elevadas. Por isso, o modelo explicativo do inconsciente como reservatório de conteúdos latentes que são indagados por ambas as disciplinas (psicanálise e linguística estrutural) — as regras fundamentais do comportamento humano devem ser procuradas no inconsciente e o modelo explicativo deste, na linguística estrutural.

Diz Lacan que, uma vez que se define “o fonema como função dos acoplamentos [binários] de oposição formados pelos menores elementos discriminativos possíveis na semântica”, ele nos leva aos próprios fundamentos da última doutrina de Freud e indica, numa conotação de presença e ausência, as fontes subjetivas da função simbólica (Lacan em Escritos, 1964).

O inconsciente freudiano é reescrito por eles à luz da linguística. Além de ser o reservatório de pulsões individuais, é o lugar das estruturas lógicas do inconsciente coletivo, que se revela na mente e na realidade.

Já a passagem do individual ao coletivo tornou possível soldar psicanálise e antropologia. O inconsciente é o que determina a relação do Eu com o Outro, segundo as regras inescapáveis da comunicação linguística e de outras formas de comunicação, como a troca de mulheres, o sistema de parentesco, a proibição do incesto. Ou, como diz Virginia de Micco em seu ensaio “Entre identidade e alteridade”,  do qual, agora, atinjo: “ É apenas a inscrição em uma langue coletiva, ou seja, em um contexto de significação e simbolização trans-subjetivo, que permite de articular significativamente a própria parole, a própria experiência subjetiva (…) e que torna viva uma langue; é justamente este o ‘ponto essencial’ em que etnologia e psicanálise – segundo Foucault (1966, As palavras e as coisas) se cruzam: onde a cadeia dos significantes sociais encontra a capacidade de significação individual, achando exatamente naquele ‘ponto’ a possibilidade de adquirir significado”.

O homem é portanto atuado por leis que não são criação dele, mas elas mesma criam o sentido não manifesto de suas ações.

A psicanálise e a antropologia nunca estiveram tão próximas. Fundadores míticos de cidades da antiguidade traçavam um confim entre o lugar interno da cidade onde reinava a ordem cultural o humano — lugar daquilo que é simbolicamente inaugurado e o lugar externo, além do recinto traçado, lugar do selvagem, do desumano, da irredutível alteridade à qual renunciava impor o poder da significação. Mas, adverte a autora, somente aceitando que exista um desvio não culturalizável, não significável, é que se pode produzir a ordem simbólica. Da mesma forma, só pode se produzir o sujeito — que é fruto dessa mesma ordem simbólica — se ele aceitar não possuir o centro desse espaço externo, esse centro incônscio que lhe escapa. Deixem aos migrantes “a opacidade de suas histórias”, diz Abdelmalek Sayad (em A dupla ausência, 2002); “Deixem ao outro sua própria opacidade “, diz Edouard Glissant (em Poética do diverso, 1998).


Aurora Fornoni Bernardini é tradutora, crítica literária e professora de Literatura Russa e Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo.

* Uma versão anterior deste texto foi publicada na RUS, revista de cultura e literatura russa da Universidade de São Paulo, em 2014.

Ilustração de Carolina Nazatto.

0 Comments