“This day and age we’re living
This cause for apprehension
This speed and new invention
And things like third dimension
Yet we get a trifle weary
With Mr. Einstein’s Theory
For we must get down to earth at time
Relax, relieve the tension
No matter what the progress of what may have improved,
The simple facts of life are such, they cannot be removed”

 

A letra acima é de uma versão de As Time Goes By lançada em 1943, quase junto com Casablanca, filme que tornou a música popular. A gravação aparece em Mulheres do Século 20 (2016), filme de Mike Mills, como tema para Dorothea (Annette Benning), e é usada de um jeito charmoso demais para acusarmos de óbvio, evocando não apenas Casablanca, mas aquele momento específico no tempo do qual a história de Rick e Ilsa faz parte: a Segunda Guerra Mundial e o mundo que não foi mais o mesmo depois dela.

“Filha da Depressão”, como é repetido várias vezes ao longo do filme, Dorothea nasceu em 1924, quando “não havia dinheiro para comida ou televisão, mas as pessoas eram reais”, e sua juventude se deu nos anos 40, época que também formou muito da sua identidade — inclusive o amor por Casablanca. Dorothea foi treinada para pilotar aviões de guerra, sua verdadeira paixão, mas com o fim do conflito, assim como muitas mulheres que na época passaram a integrar a força de trabalho em funções tradicionalmente masculinas, ela perdeu a posição e foi trabalhar num escritório de arquitetura — ainda uma pioneira, como a primeira projetista mulher do lugar, mas não era aquele o seu sonho. É o tipo de conquista que parece uma concessão, um eterno lembrete de que enquanto mulheres não podemos ter tudo. Abandonada pelo marido, ela cria sozinha o filho Jamie (Lucas Jade Zuman) num casarão decrépito em Santa Barbara, na Califórnia.

Mills, diretor e roteirista, se inspirou na sua própria vida e nas mulheres que fizeram parte dela na construção do roteiro: seu pai também não era uma figura emocionalmente presente (a relação com o pai, que saiu do armário aos 75 anos, foi explorada em seu filme anterior, o delicado Beginners) e ele credita à mãe, à irmã e às suas amigas a responsabilidade por tê-lo feito homem num “mundo sem referências”. Em 1979, ano em que se passa a história, logo antes da era Reagan, as coisas estavam prestes a se despedaçar da mesma forma como o mundo de Dorothea desmoronara algumas vezes em seu meio século de vida.

Quando Jamie apresenta a mãe ao The Raincoats, trio punk formado por garotas estridentes, ela se pergunta por que as coisas não podem mais simplesmente ser bonitas, e é obrigada a ouvir como resposta que “Músicas bonitas só servem para esconder o quão injusta e corrupta é a sociedade” — como se ela precisasse de uma música para lembrá-la.

Jamie diz isso como quem repete uma cataquese, e é fácil descobrir a origem do discurso: ao seu lado está Abbie (Greta Gerwig), uma jovem de 24 anos que aluga um dos quartos do casarão. Abbie nasceu em 1955 e é filha direta do movimento que fez nascer a segunda onda feminista. Ela sai de casa e vai estudar artes em Nova York, onde vive por alguns anos o sonho que a cidade representava na época para desajustados como ela. É lá que Abbie descobre a fotografia, se apaixona por um homem mais velho, e vê tudo isso sumir quando se percebe sozinha depois da descoberta de um câncer no colo do útero que a leva de volta para a Califórnia.

Ao ver O Homem Que Caiu na Terra (1976), um dos filmes de David Bowie, Abbie se identifica com a desconexão e estranhamento do mundo experimentados pelo personagem alienígena do título. Ela pinta o cabelo curto de vermelho para se ver um pouco como ele, tirando algo de poderoso daquela frustração de viver uma vida que não é a que ela imaginava que viveria quando mais nova, o conflito entre a culpa por um dia ter feito um aborto e a consciência de que provavelmente não poderá mais ter filhos, a consciência de que provavelmente nunca será a artista que Nova York lhe fizera acreditar que poderia ser. Abbie, no entanto, não é amarga: ela acredita em dançar quando se sente triste, dançar uma música alta e incômoda para que ninguém esqueça que no fundo ela está sofrendo; que aquilo é, antes de tudo, por sobrevivência.

Em entrevista à Rolling Stone, Mike Mills disse que o contraste entre a delicadeza de As Time Goes By e o som de derreter o cérebro de Why Can’t I Touch It?, do Buzzcocks, resume sua relação com sua mãe, um embate constante de forças opostas que se não é explícito na tela, fica claro na trilha sonora que intercala canções de grandes bandas de jazz, românticas e bonitas, com o barulho quase desconfortável da cena punk dos anos 70. “É 1979, tenho 55 anos e é nisso que meu filho acredita”, Dorothea diz diante de seu primeiro show de punk, sua tentativa frustrada de entrar no universo e na cabeça do filho, que a cada dia lhe parece mais desconhecido. É por sentir essa desconexão, e saber que ela é inevitável no processo de ver o filho crescer, que Dorothea pede a ajuda de Abbie para criá-lo, pois ela tem acesso a Jamie de um jeito que a mãe jamais terá: no mundo real, agindo como uma pessoa e não como um filho.

Embora seja o personagem central do filme, sabemos menos de Jamie do que das mulheres ao seu redor cujas vidas afetam quem ele é e quem ele pode vir a ser. Ele recebe de bom grado a ajuda de Abbie, que lhe oferece uma extensa bibliografia feminista com direito aos títulos icônicos da época, como Our Bodies, Ourselves, com um interesse tão genuíno que ele até ganha um olho roxo ao discutir sobre o clitóris e o prazer feminino com um de seus amigos. O fato de ir bater cabeça em shows de bandas punk e arrumar brigas por gostar de Talking Heads parece um processo de rebeldia protocolar saudável, e seu maior problema talvez seja estar terrivelmente apaixonado pela melhor amiga, que também é recrutada para ajudá-lo a crescer.

Julie (Elle Fanning) gosta de dormir com Jamie, literalmente dormir ao seu lado, e lhe contar segredos. Ela tem 17 anos, nasceu em 1964 e tem uma vida sexual intensa que se não lhe traz o prazer físico do orgasmo, como ela confessa a Jamie nunca ter sentido, lhe satisfaz pela conexão inusitada com aqueles garotos e seus corpos. É menos um momento romântico e mais uma exploração da vulnerabilidade da situação que lhe é satisfatória o suficiente para compensar todas aquelas vezes em que as experiências são simplesmente estranhas e desagradáveis. Já no final do filme, Jamie pergunta por que não ele, o bom moço que não quer só sexo e gosta dela como um todo, ao que ela responde que na verdade ele é como todos os garotos e está apaixonado pela versão dela que existe em sua cabeça, não por quem ela é de verdade.

Essa idealização vale para a relação com as mulheres, mas também serve como metáfora para a própria adolescência. No romance As Virgens Suicidas (1993), Jeffrey Eugenides capta bem essa projeção ao contar a história das cinco irmãs que tiraram a própria vida sob o ponto de vista dos garotos da vizinhança que eram apaixonados por elas, que narram o livro já como homens de meia-idade que as veem como um mito de seus passados. A adaptação homônima que Sofia Coppola fez do livro para o cinema em 1999 é ainda mais certeira ao mostrar como as Lisbon são, antes de tudo, projeções daquilo que os garotos pensavam elas: em tons pastéis e com a trilha sonora etérea do Air, o filme parece um sonho que representa ao mesmo tempo a imagem que eles, enquanto garotos, faziam da vida adulta, com a tristeza delas sendo algo que os tornava mais interessantes por tabela; e depois, enquanto adultos, olhando o caso com uma ternura exagerada, que glorifica aquelas figuras como quem glorifica um passado em que tudo parecia melhor e mais fácil apesar da tragédia, a mesma memória seletiva compartilhada por todas as pessoas que acreditam que a adolescência foi o melhor período de suas vidas.

Julie é esse sonho para Jamie, triste, misteriosa e cool de um jeito que Jamie imagina que jamais será possível para ele, que mal sabe segurar um cigarro, mas que é como ele gostaria de ser enquanto dança com Abbie para exorcizar seus demônios; de um jeito que, no fundo, a adolescência nunca é, porque ser adolescente é idealizar essas realidades e ficar esperando que elas aconteçam, tudo isso enquanto hormônios e paixões platônicas cozinham nosso cérebro, tudo isso enquanto o tempo passa e nos transforma em outras pessoas e aqueles sonhos nunca se realizam, pelo menos não da forma como imaginamos.

Nasci em 1994, no ano da morte de Kurt Cobain, provavelmente o último acontecimento realmente interessante do rock. Eu tinha 12 anos quando conheci os Strokes através do clipe de You Only Live Once e aquilo me pareceu a coisa mais legal que já tinha acontecido. Até hoje, quando escuto certas músicas, elas ainda parecem a coisa mais legal do mundo e faz todo o sentido que a banda tenha sido considerada a salvação do rock quando surgiu, em 2001.

Durante toda a minha adolescência eles foram a minha banda, e dançando no meu quarto no interior de Minas Gerais eu sonhava com uma vida maior do que a aquela, uma vida de madrugadas e festas em que dançaria Last Nite e me apaixonaria por um cara esquisito e terrivelmente bonitinho de cabelo bagunçado, como eram todos os membros do Strokes.

É especialmente simbólico ter o Strokes como banda favorita da adolescência, porque eles também foram um sonho que nunca se realizou da forma como todos esperavam. Ainda que o segundo disco da banda seja tão bom quanto o primeiro, ele não adiciona nada de novo e isso não seria necessariamente um problema se aquele não fosse o início de uma era que queria sempre mais, e rápido. O Strokes nunca viveu para além das expectativas depositadas sobre a banda, o que talvez tenha sido uma crueldade nossa, ansiosos que estávamos por um som que fosse novo, diferente, e que dissesse quem éramos naquele momento. “Os Strokes nem eram tão grandes assim. Todos precisavam que eles fossem grandes e queriam desesperadamente que eles fossem grandes, mas eles meio que não eram.”, disse o jornalista Andy Greenwald no livro Meet Me in the Bathroom: Rebirth and Rock and Roll in New York City (2017), de Lizzy Goodman. Para o baterista Fabrizio Moretti, eles eram só garotos que queriam conquistar o mundo, mas nunca imaginaram que teriam essa oportunidade. Quando ela chegou, eles não souberam o que fazer.

É algo que sintetiza bem como me sinto quando lembro de tudo que pensava sobre o futuro e quem eu queria ser quando era adolescente, como imaginava que as coisas seriam e como as vejo agora, recém chegada na vida adulta, em 2017, com o mundo se despedaçando. Mills disse que o melhor jeito de fazer um filme sobre memória era ser específico o bastante ao ponto de se tornar universal: Mulheres do Século 20 é essencialmente sobre seu crescimento ao lado de mulheres extraordinárias, mas conecta quem assiste às suas próprias histórias, lembranças e pessoas extraordinárias. Quando Jamie dança Fairytale in The Supermarket, que naquele momento é tudo que ele é e tudo que ele quer ser, o que eu escuto na minha cabeça é What Ever Happened?, do Strokes, música sobre tudo que eu era e tudo que eu queria ser quando tudo estava prestes a mudar.

Mulheres do Século 20 retrata de forma sutil, mas precisa, como pessoas de gerações diferentes reagem aos conflitos de época, suas mudanças e suas rupturas, tanto de um ponto de vista macro, com guerras, direitos civis e crises políticas, como micro, através de doenças, decepções, amores e desamores. Mike Mills toca em todos esses pontos de tensão num filme que poderia ser muito mais amargo dado o peso de todas essas questões, mas ele se permite olhar para a história através da sua memória afetiva do período e daquelas pessoas, que faz com que tudo mude de cor e seja mais suave, mais bonito e mais doce. E tudo bem. Richard Brody define o filme como uma “mistura de conteúdo sociopolítico com uma resposta emocional programada”, que é feita de uma forma delicada e honesta o suficiente para que isso não seja considerado um ponto fraco, mas que nos diga algo sobre resiliência.

É como diz a letra de As Time Goes By: o tempo passa e o que fica são os laços entre as pessoas, os gestos de carinho e beleza que resistem ao tempo e às adversidades. Às vezes as coisas podem simplesmente ser bonitas, como é esse filme, uma lição que ele provavelmente aprendeu com a mãe apesar de tudo.


Anna Vitória Rocha é jornalista, co-criadora e editora do Valkirias, site sobre cultura contemporânea e feminismo. 
Ilustração de Carolina Nazatto.

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