Conheci Renata Belmonte pouco antes do lançamento de seu primeiro romance, Mundos de uma noite só, editado pela Faria e Silva e depois republicado pela TAG Livros. Ela me mandou de presente seu livro recém-escrito e passamos a nos comunicar pelas redes sociais. No entanto, posso dizer que conheci primeiro a escritora e, só depois, a mulher que se transformaria na grande amiga com quem discuto semanalmente sobre aspectos da vida feminina, da maternidade e — nosso assunto preferido — da literatura e da psicanálise contemporâneas. Hoje, com nosso reservatório de assuntos sempre cheio, é difícil ler seus livros sem vê-la ali, sem encontrar o gérmen de sua forma de criação e do seu pensamento complexo e inventivo.
Se tivesse que descrevê-la, diria que Renata é uma mulher que não tem medo – ou, pelo menos, não mais —, de sua singularidade. Até mesmo as pequenas loucuras que a habitam podem hoje se acomodar em histórias engraçadas ou nas linhas dos livros. Ao mesmo tempo, conheço poucas pessoas tão lógicas e com tanta consistência de ideias; ambivalência talvez produzida na fronteira entre a escritora e a advogada.
As perguntas que lhe fiz nessa entrevista, a convite da Revista Deriva, são permeadas pela leitura de seus dois romances, sobretudo o último, Piscinas Russas, recém-lançado pelo selo Tusquets, da editora Planeta — uma obra-prima, na opinião da leitora que vos fala. São perguntas para uma escritora brilhante, como vocês verão. No entanto, não posso deixar de dizer que, para além da escritora, Renata é, por si mesma, uma pessoa estranhamente literária, com tantas camadas quanto se pode contar. Tenho a sorte de conviver com algumas delas e espero ter feito perguntas que iluminem a complexidade dessa minha amiga genial.
Cauana Mestre: Renata, todas as suas personagens são abundantemente esféricas, como disse Antônio Candido, mas sobretudo as femininas. Em Piscinas Russas você dá vida a pelo menos cinco mulheres feitas de muitas matérias, tão múltiplas que é impossível não recair em uma pergunta inocente, mas que me acompanhou ao longo de toda a leitura: como é coexistir com tantas vozes?
Renata Belmonte: Recentemente, eu estava passeando pelo meu feed do Instagram, quando surgiu o vídeo de uma mulher com sua filha. Pelos reflexos do espelho que constituía o material da filmagem, eu acompanhei, então, as duas, belíssimas, entre sorrisos, mostrando seus lindos vestidos de festa para os seguidores. E, no enquanto desta cena, eu me peguei numa profunda conversa interna, perguntando para Deus o porquê de eu não ter sido agraciada com uma existência psíquica assim, aparentemente, mais simplória. De certo modo, desde criança, sempre fabulei sobre como deve ser tranquilizadora a experiência de viver de forma mais inconsciente, protagonizando apenas a história típica que atribuem ao seu corpo. Mas, por óbvio, eu também sou capaz de saber que tudo isso que fabulei sobre as duas mulheres pode não passar de uma idealização reducionista minha da experiência alheia. Porque é fato que ninguém consegue fugir do que para que veio. E a única coisa que tenho certeza, Cauana, é de que fabular se confunde com o meu nascimento e minha própria identidade. Nunca pude escolher outra maneira de ser, pois a existência como eu a conheço, desde o primeiro instante, apresentou-se assim: dissonante, multifacetada, cheia de inusitados, solitária e densa. Apesar da minha aparência de adequação, sempre houve algo, em mim, que contrariava as expectativas da minha família e da sociedade na qual eu que cresci. Muito provavelmente, todas as minhas personagens começaram a me habitar, ainda na minha primeira infância, quando eu (já dada como ilegível) comecei este experimento incessante de me tentar outras, de traduzir, a partir de palavras escritas, todas as vozes que me faziam companhia.
C: Ao chegar à metade da leitura de Piscinas Russas, tive que retornar e montar uma árvore genealógica das famílias, algo parecido com aquilo que fiz ao ler a Tetralogia, de Elena Ferrante.
No entanto, sinto que Ferrante facilitou um pouco para os leitores, com sua lista de personagens logo no princípio. Já no seu romance, não houve trégua. Gostaria que você falasse um pouco sobre essa sua rara decisão (principalmente na literatura contemporânea) de não fazer concessões em relação à forma e à densidade da leitura.
R: Em todo organismo vivo há uma sacralidade e, por vezes, uma certa desordem íntima que precisa ser respeitada. Creio que o mesmo se dá também com o livro. Para que a luz, ou seja, a revelação do indizível pela palavra ocorra; um absoluto consentimento da obscuridade do seu caminho precisa ser acatado. Penso também que cada texto pede sua forma (corpo) e que cabe ao escritor saber escutar, verdadeiramente, o desejo estrutural de sua criatura. Não senti que o Piscinas Russas demandava um mapa meu, inclusive, amo que os leitores constroem os seus próprios porque, deste modo, assim como na condução de suas existências, eles assumem a autoria. O que eu desejo mesmo, quando escrevo, é uma comunhão leitora visceral, entendo o encontro literário como um ato amoroso e só quero que mergulhe comigo quem aceita estar perdido e suporta que Deus é pergunta.
C: Mohamed Sarr, em A mais recôndita memória dos homens, livro que eu sei que você também ama e que aparece em Piscinas, escreve que a literatura não é aquilo que nos salva do mundo, mas, ao contrário, o meio pelo qual não nos salvamos do mundo. Essa ideia me acompanhou na leitura do seu romance, pois não há redenções ingênuas e tampouco verdades absolutas, o que há é a expressão da humanidade em suas profundezas. Nesse sentido, qual é o limite do escritor? Qual a medida do mergulho para revelar a humanidade sem se afogar com ela?
R: Não posso continuar. Continuarei. Isso é Beckett. E serve tanto para o processo literário quanto para cada pessoa frente ao imponderável teatro do absurdo que é existir. Precisamos dar conta do horror e da beleza suprema de sustentarmos, no mundo, um corpo, para caminharmos, entre contingências, em direção ao nosso íntimo desconhecido que nomeamos de destino. O único limite do escritor se revela, portanto, naquilo que ele não consegue alcançar ou no que aniquilará sua capacidade inventiva e o impedirá de seguir. Eu me propus enfrentar as minhas sereias, Cauana, mergulhei mesmo no Piscinas. Mas, honestamente, ainda não acho que as venci. Voltei muito devastada, as vivências destes femininos foram exigentes em excesso para mim. Eu queria encarar o real, mas descobri que ele é um sol, portanto, deixa-nos siderados e cegos se nos aproximarmos demais dele. Quanto da verdade aguentamos suportar? E mesmo o olhar para a vida pela literatura demanda um sujeito capaz de enxergar o seu avesso impossível. Para além da porta da morte, apenas a morte, a Aida nos avisa, no livro. Morrer um tanto quando se escreve faz parte; abrir mão de certas idealizações, idem; só que eu descobri que a medida para tudo isso é justo não perder esse desejo de seguir, continuar avançando, na aventura mágica da vida.
C: A solidão é um tema caro à psicanálise, pois diz respeito a algo que é de todos e é de cada um, repetindo-se a cada vez e não se repetindo nunca. Nascemos e morremos sozinhos, somos filhos de um desamparo que nos assombra, mas que também nos dá a medida de nossa absoluta singularidade.
Algumas experiências são confrontos frente a frente com a solidão radical de habitar o próprio corpo e a própria história e escrever é, sem dúvida, uma delas. Ao longo da história da literatura essa experiência, principalmente para mulheres escritoras, custou muito. Minha pergunta é radical, pois não pode ser reduzida: o que, na vida terrena e corpórea, te fazia voltar da solidão das águas do Piscinas Russas? Como foi transitar entre esses dois litorais?
R: A coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, uma mulher comum, e seus filhos comuns, escreveu o romancista Gilbert Keith Chesterton. E eu não consigo concordar mais com essa frase quando penso no que costumo chamar de minha pátria. Porque o que sempre me fez voltar da solidão das águas foi a terra firme que tem nome e sobrenome: minha família. Foram os membros dela, mais especificamente as minhas filhas, que me obrigavam sempre a retornar para mim, ao longo do processo criativo do Piscinas. Mas, preciso dizer, paguei um pedágio alto por viver entre mundos. Escutar minhas personagens nunca foi uma escolha e sofri demais com as brigas (externas e íntimas) que comprei para sustentar a condição de “mãe escritora”. Sou súdita de rainhas que me pedem toda para si: a maternidade e a literatura. E estou sempre em falta com alguma delas, não raro, uma culpa profunda me consome. Nunca me acho suficiente, adequada, no lugar certo. Por vezes, inclusive, eu me ressinto muito de não existir somente exercendo funções sociais comuns só para, no instante seguinte, agradecer a benção que é ter uma singularidade-âncora. Sim, a minha ambivalência é imensa. Só que eu venho aprendendo que sou apenas inteira quando dividida. Antevasin: algo se apaziguou quando descobri que havia uma palavra estrangeira e intraduzível para mim.
C: Seu livro toca em temas emergentes e nevrálgicos da nossa realidade, mas não se resume a nenhum deles e não se torna temático. Lembro novamente de Sarr: “um grande livro não tem tema, não trata de nada e, no entanto, tudo está lá”. Lembro também de Chimamanda, que disse, em recente visita ao Brasil, ser uma mulher feminista e não uma escritora feminista. No entanto, falo de dois autores negros e imagino que, para eles, o trabalho de não sucumbir às armadilhas temáticas convocadas pelo mercado editorial seja diferente do seu. Pode falar um pouco sobre isso? Sobre sua decisão de não recuar de tema nenhum e, ao mesmo tempo, não recusar nenhum deles, sendo você quem é?
R: Recentemente, li que Beckett (sim, de novo ele aqui), no instante em que recebeu a notícia de que havia sido contemplado com o Nobel, declarou: é uma catástrofe. E que quando o László Krasznahorkai tomou conhecimento de que sua obra foi agraciada com este mesmo prêmio, neste ano, complementou: é mais do que uma catástrofe. Bob Dylan pediu para a Patti Smith ir, na cerimônia de premiação, buscar o dele. Porque é sempre um espanto para um escritor comprometido com a escuta de sua verdade intrínseca, descobrir que seu trabalho foi absorvido pelo mainstream do mercado literário, instituição que, via de regra, busca a massificação e planificação das experiências pela linguagem para vendê-las em série. E depois de receber uma glória terrena tamanha como um Nobel, pode um autor voltar a executar o seu ofício literário, em toda a sua naturalidade? Certamente, sim, mas isso demanda uma honestidade brutal imensa, bem como a capacidade de desagradar as expectativas de um número ainda maior de pessoas, por vezes. Não pertencer de forma integral, fazer apenas o que o texto pede e não aderir a consensos questionáveis do seu tempo apenas para parecer palatável, lógico, são posturas difíceis, mas as únicas permitidas para quem serve ao chamado maior e não se rende às nomeações simplórias. Gosto muito que você trouxe como exemplos esses dois autores, muito diferentes entre si, mas ambos bastante preocupados em escrever apenas a partir daquilo que os anima como artistas. Minha família literária é composta por pessoas como eles, justo nelas, encontro a minha própria coragem para continuar com o meu projeto de autoria. Mercado literário e literatura são coisas bem distintas. E vou encontrando meus pares não por identificações estéticas totalizantes, mas a partir da admiração que sinto por suas particulares e máximas verdades, pelos seus próprios espetáculos de introspecção, como definiu o próprio Sarr. Sou uma artista de fabulação, Cauana, portanto, não esqueça: meu exercício maior é justo encontrar um além de mim, abraçar diversos modos possíveis. Kafka quis queimar seus livros e eu compreendo seus motivos. Mas a minha fé em algo maior me protege das ameaças e modismos ocos do meu tempo, além de me dar a força necessária para eu seguir fazendo o que preciso.
C: Na margem em que habito, entre a crítica literária e a psicanálise, aprendi que o oposto da ficção não é a verdade, mas a mentira, pois a ficção existe para revelar verdades íntimas. Que verdades íntimas e coletivas você acredita revelar com Piscinas Russas?
R: A literatura é sobre o nosso particular universal. Sempre. O Piscinas Russas precisava recontar, em detalhes, as experiências genuínas que se estruturam a partir da escolha por um filho. Neste romance, muitas mulheres parecem ter perdido suas línguas e buscam inventar dialetos que consigam dar conta de suas dores. Não raciocino em termos de vítimas ou algozes eternos e reconheço contingências como possíveis espaços de subversão e autoria. Assim, a minha maior dificuldade foi me apropriar do tecido móvel da vida para costurar, por vezes, histórias e destinos que falam e se comunicam entre si mesmos. Não gosto da ideia de que a arte tem a obrigação de deixar mensagens, penso que cabe a cada leitor escolher, no meu romance, o que ele quer levar consigo. Da minha parte, posso dizer que este livro, esta minha alegria difícil (como Clarice chamou o seu A paixão segundo GH), é a coisa mais próxima da aceitação da incompletude da verdade que eu já me permiti.
C: Em Mundos de uma noite só você já trilhou um caminho que me parece agora ainda mais consistente em Piscinas Russas: algo como um caminho sem recuos, sem fazer grandes concessões ao que suponho que se espera, hoje, em alguns campos do mercado editorial. Te pergunto: em sua opinião, é possível uma arte que se dobre a isso? Como foi, pra você, conciliar ou não o desejo de ser lida com o empuxo a escrever dentro da forma que você cria como sua?
R: Eu acredito na morte do autor, assim como defendida pelo Barthes. Então, rigorosamente falando, dar uma entrevista sobre o livro já é uma concessão. Também concordo com a Susan Sontag quando ela diz que “uma obra de arte vista como obra de arte é uma experiência, não uma declaração nem uma resposta a uma pergunta. Uma obra de arte é uma coisa no mundo, não apenas um texto ou comentário sobre o mundo”. Dito isso, vivo procurando o limite entre escrever um grande romance sem sucumbir ao maior disfarce de todo medo literário: o purismo. Não, não estou encastelada, amo dialogar com as pessoas, portanto, existo no mundo como um sujeito para além da minha autoria. E justo porque trabalho para a circulação dos meus livros, confio que existirão leitores capazes de se versarem, na minha linguagem. A repercussão do Piscinas Russas, inclusive, tem sido incrível, mostra tantos abertos ao novo. O próprio sucesso do Mundos também comprovou a existência de um continente de pessoas buscando uma experiência literária distinta da média das que vem sendo oferecidas. Não escrevo para distrair ninguém, esse mero amortecimento não me interessa enquanto efeito, desejo a comunhão leitora plena, a criação de uma postura reflexiva que perdure no tempo. Meus livros não serão amados por todos e eu estou confortável com essa circunstância, escrevo me permitindo o fracasso, abismo. Portanto, pode ter certeza: sempre entregarei o que me pede o texto, ao longo do processo criativo. Eu e meus leitores merecemos o melhor de tudo isso.
Cauana Mestre é psicanalista, pesquisadora e professora. Além de clinicar, escreve sobre cinema, literatura e psicanálise e é co-criadora e apresentadora do podcast Sobre Um-Dizer ao lado da psicanalista Licene Garcia.
Crédito da imagem: fotografia de Renata Belmonte por Pico Garcez.
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