A caneca foi presente de Natal. Sempre tive implicância com decorações natalinas, mas daquela, que adornava o meu presente, eu gostei muito. Talvez porque o desenho fosse discreto. Ou porque o objeto sob ele tivesse um significado maior. “É para você tomar o seu café de todo dia”, disse Mertila, assim que abri o embrulho.

O café, para nós, era mais do que uma bebida quentinha que desperta. Foi um café o que ela me ofereceu quando nos conhecemos. Um domingo, se não estou enganada. Havia outras visitas na casa, mas o foco daquela tarde era eu, a nova namorada do caçula dela, o único filho homem. As irmãs e as tias dele estavam evidentemente loucas para me amarrar numa cadeira e começar o interrogatório. Mertila sentia a mesma vontade, mas preferiu começar com calma, me oferecendo um café, que eu aceitei forte e sem açúcar.

Não demorou muito para aquele matriarcado me incluir na família. Não ganhei o status de filha, mas sempre fui muito feliz com o de “sobrinha”. Em pouco tempo, passei a ser disputada entre o namorado, que preferia nos isolar no quarto onde eu era ouvinte de suas composições, e a mulherada da casa, cheia de disposição para conversar na cozinha ao redor de uma cafeteira italiana fumegante. Nos fins de semana, não raro juntavam-se a nós também as tias e primas do rapaz. E a disputa era, então, para saber quem falava mais.

Até que a roda ficou menor. E menos animada. Foi quando uma das irmãs de Mertila morreu vítima de uma infecção generalizada após uma cirurgia. Deixou quatro filhos, um marido e irmãs desolados.

Nessa época, tomamos ainda mais café. De volta do trabalho, a caminho da faculdade, eu costumava parar em uma padaria, comprar um bolinho de fubá e tocar a campainha oferecendo companhia para o lanche da tarde. Era sempre recebida com um abraço, um beijo e, claro, uns bons mililitros de nossa bebida preferida.

Foi naquele ano que ganhei a caneca com motivos natalinos. Dentro, havia um bilhete em que se lia: “Obrigada por dividir conosco a sua humanidade”. Eu nunca disse, mas quem sentia gratidão por poder desfrutar de humanidade era eu quando estava perto dela.

Lembro do dia em que, atordoados, assistimos às cenas do atentado em Nova York, no 11 de setembro. Na sala, em volta da televisão, a família arriscava análises grosseiras. “Destruíram o nariz empinado dos Estados Unidos”, um afirmou. “Finalmente alguém teve a coragem de desafiá-los. E dentro da própria casa!”, outro completou. “Vocês estão esquecendo das pessoas que morreram. Cada um deles é UMA MORTE”, disse Mertila calando todos os outros.

Sempre admirei seu jeito de criar os filhos: uma combinação quase perfeita de muito amor, alegria por estimular os rebentos a crescer, disciplina e respeito às singularidades de cada um. Ainda hoje acho graça na história de quando o filho, na fase rebelde da adolescência, praticamente mudou de idioma. Substituiu o bom português que a mãe professora ensinava em casa por dezenas de gírias incompreensíveis a qualquer adulto são. O cabelo esquisito, as roupas rasgadas, as botas ou a música ensurdecedora não eram grande problema. Mas o linguajar… Ah, esse não poderia descambar. Instituiu, então, uma regra. Na rua, com os amigos, ele poderia falar como bem entendesse. Já, em casa, a prática seria outra. O garoto deveria não só se comunicar corretamente como também usar a norma culta da língua. Não à toa, a palavra passou a ser instrumento de trabalho do rapaz.

Eu achava graça também no jeito natural com que ela usava termos eruditos no meio de frases corriqueiras. Certa vez, estávamos de saída para uma peça de teatro quando bradou: “Vamos logo, pessoal, o tempo urge!”. Caímos todos na gargalhada.

Nas noites de inverno, quando eu chegava para namorar já cansada e morrendo de frio depois da maratona trabalho-faculdade, ela corria para a área de serviço. Lá, aquecia por alguns minutinhos as cobertas na secadora para eu ficar quentinha enquanto assistia a algum filme no sofá da sala enroscada no filho dela. Fez vista grossa quando comecei a esticar a estadia até o dia seguinte, mas, no café da manhã, eu percebia seu o desconforto com a minha presença.

Tentou ser imparcial quando esmigalhei o coração do seu caçula. Nos afastamos, mas, tempos depois, com os sentimentos mais maduros, voltamos a cultivar o carinho mútuo. Nunca mais tomamos cafés, mas trocávamos e-mails, e seguíamos uma a outra via redes sociais. Ela se alegrava com minhas conquistas e eu ficava muito feliz com a companhia dela, ainda que virtual.

Por anos, alimentei a vontade de visitá-la, mas nunca tomei coragem para ir de fato até lá. Quis que conhecesse meus filhos e, de vez em quando, imaginava como seria o encontro. Meu desejo ficou urgente quando soube que seu pulmão não ia muito bem. De tempos em tempos, recebia notícias por uma das filhas. Em uma dessas ocasiões, a moça me disse que, para sua mãe, conseguir dar uma volta no quarteirão era uma conquista. Em outra, fui informada sobre a chegada do aparelho com o qual teria de conviver para sempre se quisesse respirar. Chegaram a pensar em transplante, mas desistiram.

Tomei coragem, enfim: “Eu gostaria de vê-la, você acha que devo?”, perguntei ao ex-namorado por mensagem eletrônica. Seco, respondeu que a decisão era minha. Ele só poderia contribuir com dados objetivos: a mãe estava completamente exaurida da vida. Os sopros de oxigênio mal eram suficientes para que ela sequer pensasse com clareza. Emoção intensa seria atividade exagerada, portanto.

Era chá e não café o que eu bebia na caneca natalina na noite em que recebi a notícia. Em coma induzido, restavam apenas horas antes que Mertila morresse.

Na manhã seguinte, parei na padaria da esquina, encostei no balcão e tomei um café. Dessa vez, sozinha e em copo de vidro.

 


Giuliana Bergamo é jornalista e mestranda em Literatura e Crítica Literária na PUC-SP.

Ilustração de Celeza Ramalho

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