não conheço poetas mortos
assisti a sociedade dos poetas mortos duas vezes no cinema
na época da estreia do filme
naquele tempo, se você gostava de um filme, tinha de vê-lo enquanto estava em cartaz
então você ia e via várias vezes e tentava memorizar as cenas e as falas
porque talvez você nunca mais pudesse ver aquele filme de novo
depois de um tempo, já não existiam mais os filmes, só as lembranças dos filmes
e as versões contadas de uma pessoa pra outra

conheço poetas vivos
como a marília garcia, como o ricardo domeneck, como a angélica freitas
como o chacal, como o lucas matos, como o thiago gallego
como a bruna beber, como a regina azevedo, como o ismar tirelli neto
como o victor heringer

um dia, há alguns anos, eu e o victor estávamos no coreto da praça são salvador
futura praça ismar tirelli neto
ambos tínhamos terminado namoros
e estávamos tristes
ou estávamos no estado de espírito em que os poetas se permitem ficar quando terminam namoros
já tínhamos bebido toda a cerveja e toda a cachaça da praça
quando o último bar fechou, fizemos um estoque: três batidas, duas cervejas e uma caipirinha
que deixamos preventivamente ao nosso lado no chão do coreto

o victor, talvez por ser mais poeta que eu, ou mais jovem, ou mais afeito ao drama, ou por estar mais bêbado, me parecia estar sofrendo mais
em todo o caso, eu queria consolá-lo
e comecei a remexer na minha bolsa verde
que era exatamente esta bolsa verde que carrego agora

esta bolsa nem sempre foi minha
ela é uma bolsa fiorucci dos anos 1980
que tinha sido da mãe da minha ex-namorada, em são paulo
quando a gente se separou, eu fiquei com a bolsa, que costumava usar quando ia visitá-la

minha bolsa está sempre cheia de coisas, especialmente papéis e livros
então eu fui tirando tudo o que tinha dentro da bolsa
e contando pro victor as histórias que cada coisa me lembrava
como se fosse uma sherazade adiando a dor de cotovelo
ou um camelô, um vendedor de sonhos e bugigangas
mas a gente estava triste, a gente estava mesmo na merda e não dava pra disfarçar

então uma hora eu já não tinha mais o que tirar da bolsa-cartola
e o victor ainda parecia muito triste ali, sentado ao meu lado no coreto
e eu sentia um amor, uma ternura enorme por ele
daí saquei este livrinho, que é o mesmo que tiro agora da mesma bolsa verde
o sentimento do mundo, de carlos drummond de andrade

esse livro foi lançado há muitas décadas
mas esta é uma edição de bolso recente
vem com um selo estampado avisando que esses poemas vão cair no vestibular da fuvest/usp de 2013
eu não comprei este livro, não exatamente

quando fui a são paulo terminar o namoro, precisei fazer hora pra esperar o voo de volta pro rio
então passei numa livraria no shopping
e aproveitei pra trocar uns cadernos que tinha ganhado de presente
porque eles eram grandes e não cabiam nos meus bolsos
troquei por dois caderninhos menores e ainda sobrou um pouco de crédito, devido à diferença dos preços
essa diferença não dava pra comprar quase nenhum livro, porque os livros na livraria eram muito caros
mas este aqui era pequeno e numa edição de bolso, então dava

então eu troquei os cadernos grandes por dois caderninhos pequenos e mais o sentimento do mundo
e trouxe tudo isso comigo de são paulo na bolsa verde que tinha sido da mãe da moça que tinha sido minha namorada
daí, no coreto, eu saquei o livrinho da bolsa, abri na página 53 e li pro victor o poema mãos dadas

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

o victor já conhecia esse poema
o victor tinha 20 e poucos anos e já conhecia todos os poemas de todos os poetas mortos do mundo
eu também já tinha lido o poema antes
mas, depois que eu o li em voz alta no coreto, ficamos em silêncio por um tempo
até que o victor olhou pra mim e disse
só você pra sacar o sentimento do mundo dessa bolsa verde
e ler esse poema nessa hora

ele disse isso sorrindo
e eu fiquei feliz de ter feito ele sorrir
desde aquela noite o poema mãos dadas tem, pra mim
além de tudo o que o drummond botou nele
aquele momento no coreto

no começo do filme aquarius há uma festa de aniversário
de 70 anos da tia lúcia
enquanto as crianças da família narram os feitos da tia, numa homenagem
a própria lúcia se distrai, olhando pra uma cômoda
lembrando de ter feito sexo em cima daquela cômoda
acho que aquarius é um filme sobre a memória das coisas
dos objetos e dos lugares
o poema é um objeto e como tal
capaz de acumular sentido

desde aquela noite no coreto da são salvador
o poema mãos dadas passou a me acompanhar
acumulando outros tantos afetos
e acabei por usá-lo como epígrafe do meu livro OCUPA
junto com versos de uma canção dos smiths
pra mim, quase nenhum objeto é tão carregado de afetos quanto uma canção dos smiths

na orelha do OCUPA, a angélica freitas cita walt whitman
mas eu não conheço walt whitman
eu só reconheci a citação
porque na verdade ela está citando uma cena
de sociedade dos poetas mortos

quando me dei conta disso, fui direto ao youtube conferir
hoje em dia é bem mais fácil rever um filme
você pode achar até uma cena específica
na hora, e ver quantas vezes quiser

acho que isso é bom
não conheço poetas mortos
todos os poetas que conheço
estão vivos

 

* Este texto foi apresentado pela primeira vez no encontro Poetas de dois mundos #03, do qual participei com Horácio Costa, Ismar Tirelli Neto, Marília Garcia e Leonardo Gandolfi, a convite de Leonardo Marona, na Livraria da Travessa de Botafogo, no Rio de Janeiro, no dia 5 de outubro de 2016; depois, com ligeiras adaptações, passou a integrar o roteiro do espetáculo poético Aos Vivos, estreado no Festival Sesc de Inverno, em Friburgo, no dia 30 de julho de 2017. Em ambas as ocasiões, Victor Heringer estava presente.


Dimitri BR é autor de Breviário da sagrada dúvida (2015) e OCUPA (2016), além de canções e videocanções.

Ilustração de Carolina Nazzato

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