Nesta seção, cinco convidados compartilham conosco suas recomendações de leitura inspiradas no tema desta edição: memória.

Jéssica Carvalho, historiadora e mediadora do Clube da VilaLeandro Sarmatz, editor da Todavia LivrosStephanie Borges, tradutora e jornalista [autora da newsletter A cartinha das banalidades]; e Taís Bravo, editora do Mulheres que Escrevem, gentilmente aceitaram o desafio, bem como a escritora Nara Vidal, que, a nosso pedido, listou os títulos que marcaram sua formação como leitora na infância e na adolescência.

Uma curiosidade: dos cinquenta títulos indicados, apenas um apareceu em duas listas: A guerra não tem rosto de mulher , de  Svetlana Aleksiévitch, escritora vencedora do Nobel de Literatura em 2015. O livro foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2016 com tradução de Cecília Rosas.


 

Jéssica Carvalho

  1. O palácio da memória, de  Nate Di Meo

Um podcast americano que prendeu nada menos que Caetano W. Galindo (aos desavisados, um dos maiores tradutores do inglês do nosso país) por sete horas e que o fez querer traduzir em palavras para o português o desfile de personagens reais que Nate Di Meo pesca em jornais de época e livros, para nos passar furtivamente mensagens e esboços do que é a humanidade. Temos uma galeria interessantíssima de histórias, desde o leão dos estúdios Metro, passando pelo homem que foi babá da bomba atômica, pela menina-prodígio e uma das maiores pianistas, Hazel Scott, até percorrer o trajeto da primeira elefante à pisar em solo americano, vamos andando por essa galeria armada de figuras que são trágicas, desafiadoras, inteligentes e que pelo trabalho deste homem, renasceram da bruma que é o passado. Publicado no Brasil pela Editora Todavia.

2. A resistência, de  Julian Fúlks

Como lidar com o legado de um passado que não é totalmente seu, mas de seus pais, do irmão adotivo, da Argentina e do Brasil no período da ditadura militar? Como entender através das fissuras que do muro do silêncio? Num movimento que se abre a partir de uma memória familiar, depois coletiva e por fim íntima, o narrador busca sua identidade, perdão e compreensão de si e seu irmão, em linhas muito poéticas. Publicado pela Companhia das Letras.

3. O impostor, de Javier Cercas

Um escritor que entra na espiral que é a cabeça de uma dos maiores impostores da história espanhola, Enric Marco, que simplesmente passou décadas fingindo ser uma das vítimas do regime nazista. Javier Cercas, numa caçada policial e ensaística, mistura-se com o narrador e o personagem a ponto de as fronteiras entre a ficção e a história, entre o real e o imaginário serem muito fluídas. Ao fim duvidamos de quem somos, e de nossa própria capacidade de nos forjarmos através do que escolhemos lembrar. Publicado no Brasil pela Biblioteca Azul, selo da Globo Livros.

4. Flores artificiais , de  Luiz Ruffato

Dório Finetto, um homem-ouvido capta o momentos mais poéticos e significativos de oito sujeitos pelo mundo. Um inglês em Paranapiacaba, uma francesa que dançou o tango de sua vida, um boliviano que busca seu pai desaparecido desde sua infância, uma mulher solitária pelas ex-colônias portuguesas. Um único fragmento pode resumir a vida toda de uma pessoa, seus remorsos, dores, rancores, êxtases e esperanças. Um livro engenhoso, envolvente que prende do início ao fim e nos faz pensar qual momento de nossa vida escolheríamos para nos resumir. Publicado pela Companhia das Letras.

5. Passado perfeito , de  Leonardo Padura

“E lembrava que no dia exato em que sua vida mudará ele havia se perguntado o que era o destino e tivera uma única resposta: dizer sim ou não. Se você puder”. Mário Conde se vê imerso em seu passado após um dos esquecidos reaparecer, assassinado, e ele ser o responsável pela investigação. Buscando entender o que aconteceu com Rafael Morín, ele revisita sua vida estudantil, seu primeiro amor e a Cuba em que cresceu, revolucionária e contraditória como ele. Vale a pena só por ser um livro desse maravilhoso escritor, além do mistério do enredo. Publicado no Brasil pela Boitempo Editorial.

6. Amada , de  Toni Morrison

Difícil tentar resumir uma obra-prima da literatura mundial, da primeira mulher negra a ganhar o Nobel. Sethe, a protagonista deste romance, é uma Medeia tentando sobreviver à condição de ex-escrava com muita resiliência. Um panorama íntimo e histórico que mergulha o leitor nesse mundo sombrio em que as palavras saem com muita dor e esforço, como se fossem fios cortantes, que a despeito de machucarem, são extremamente necessários para nos lembrar desse grande absurdo que foi a escravidão. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

7. A guerra não tem rosto de mulher , de  Svetlana Aleksievitch

A imersão que fazemos nos livro é semelhante à proposta do programa Ensaio, da TV Cultura, Svetlana apaga sua voz, suas possíveis perguntas, até sua presença, para nos fazer adentrar nas cozinhas e salas de estar de mulheres idosas que outrora pegaram em ataduras, esparadrapos e colheres de pau, mas também rifles, granadas, facas, aviões, para combater na Segunda Guerra Mundial. A diversidade de participações e a intensidade das experiências é muito bem construída e relatada, memórias que essas mulheres vão colocando em palavras e que uma nação inteira não quis admitir, só omitir, que suas jovens moças também foram para o front. Publicado pela Companhia das Letras.

8. Memória por correspondência, de  Emma Reyes

As memórias epistolares da talentosíssima artista colombiana Emma Reyes são divertidas, interessantes, nos emocionam. A narradora transmuta-se na menina curiosa e espevitada que foi um dia, e nos pega pela mão para irmos pela sua viagem tortuosa, sua mãe furiosa, o abandono e a chegada ao convento, onde ela e sua irmã passam quase toda a infância. Seus dedinhos ágeis bordavam infinitamente toalhas, enxovais e toda sorte de paninhos para a igreja, para o padre, e com ela sentimos o calor e os dedos latejarem, tamanha é a capacidade de construir imagens da escritora. Indispensável pela aventura, e para descobrirmos na narrativa porque seus quadros tem tanta textura! Publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

9. Leite derramado , de  Chico Buarque

Um homem derrama sua trajetória para a filha e as enfermeiras que dele cuidam num hospital público. Começa bem distante, lá nos idos do Brasil colônia chegando até o presente século 20, numa narrativa fragmentada, que gera muitas dúvidas, falsidades e o não-dito se revela mais eloquente muitas vezes, porque permite ao leitor completar as camadas que vão do íntimo ao social, revelando a formação do Brasil, de sua corrupção e problemas sociais condensamos nesse confuso ancião. Publicado pela Companhia das Letras.

10. O inferno dos outros , de  David Grossman

“O mundo é uma almofada de alfinetes”. Dovale, comediante de stand-up, diz esta e outras frases muito intensas e nada apropriadas para a ocasião — diante de uma platéia ávida por gargalhar, ele narra seu passado sombrio, seus fracassos, sua relação kafkiana com o pai, o bullying que sofreu e seu desajuste com o mundo. E então entramos no torvelinho do presente, que é o show que está sendo apresentado, e do passado trazido à mesa por Lazar e suas memórias de seu ex-amigo de adolescência, o comediante ali exposto, que o convidou para que ele pudesse assistir, avaliar e responder quem ele mesmo é. Saímos do livro pensando sobre os limites do humor e nossa fragilidade diante do outro. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras.


 

Leandro Sarmatz

  1. O gueto, de Tamara Kamenszain

O luto, a memória (de um pai com Alzheimer) e os pesadelos da história (o nazismo, a ditadura argentina) invadem a sala de jantar de uma família portenha. Obra-prima da grande poeta argentina. Publicado no Brasil (edição bilíngue) pela editora 7 Letras.

2. A idade do serrote, de Murilo Mendes

Um tropel de fantasmas, uma acumulação temporal – e a força da poesia nessas memórias da infância e mocidade em Minas Gerais. Um dos grandes momentos da prosa brasileira do século XX. Um livro que vibra ainda hoje, passados quase 50 anos de sua publicação. Publicado pela Cosac Naify.

3. O rumor do tempo, Ossip Mandelstam

A infância, São Petersburgo e o encantamento pela linguagem nessas memórias escritas num estilo breve, “pontilhista” e cheio de associações (imagéticas, verbais) inesperadas. Publicado no Brasil pela Editora 34.

4. Black out, María Moreno

O álcool como experiência central de uma vida. María Moreno, grande cronista argentina, retraça aqui — com as ferramentas do ensaio, do memorialismo e da ficção — uma vida de pileques, literatura e vida no bar, “este lar contra o lar”. Publicado pela Random House (ainda inédito no Brasil).

5. Caderno de memórias coloniais, de Isabela Figueiredo

Um espantoso acerto de contas com o pai e o colonialismo português, mistura de Infância, do Graciliano, com Carta ao Pai, de Kafka. Tudo isso num estilo vivo, sem papas na língua e cheio de insights sobre os espectros que ainda hoje assombram a sociedade portuguesa. Será publicado no Brasil pela Todavia.

6. Drohobycz, Drohobycz and Other Stories: True Tales from the Holocaust and Life After, de Henryk Grynberg

Um conjunto de narrativas sobre o Holocausto, todas evocadas a partir de episódios reais. A peça central do volume trata da reconstrução dos últimos momentos de vida do grande escritor polonês Bruno Schulz. Um triunfo de imaginação histórica. Publicado pela Penguin (ainda inédito no Brasil).

7. Rencontres avec Samuel Beckett, de Charles Juliet

Gestos precisos, modéstia, astúcia e inteligência. Com delicadeza e vivacidade, Juliet rememora nestas crônicas a série de encontros com o grande escritor irlandês em Paris, entre as décadas de 1960 e 1970. Publicado pela P.O.L. (ainda inédito no Brasil).

8. Anos de formação: os diários de Emilio Renzi, Ricardo Piglia

Primeiro volume dos famosos diários de Piglia/Renzi. Uma experiência de imersão total numa das inteligências mais agudas (e cosmopolitas, de tão portenha) da literatura latino-americana. Publicado no Brasil pela Todavia.

9. Danúbio, Claudio Magris

Um rio que deságua numa porção de nações centro-europeias. Um fluxo contínuo de memórias, esquecimentos, omissões criminosas e uma penca de culturas e idiomas – tudo isso às vésperas de mais uma transformação brutal do cenário, nos anos 1980. Publicado no Brasil pela Companhia de Bolso, selo da Companhia das Letras.

10. The letters of Samuel Beckett: volume 2, 1941-1956, de Samuel Beckett

Os anos centrais de Beckett: a Guerra, os primeiros textos em francês, a consagração com Godot. Para passar tardes inteiras flanando pelas cartas. Publicado pela Cambridge University Press (ainda inédito no Brasil).


 

Nara Vidal

  1. Ricardo coração de leão,  de Walter Scott

Talvez uma primeira faísca de interesse pela Inglaterra, lembro-me de como tive acesso à história. Uma bibliotecária vinha uma vez por semana ler um capítulo da história na sala de aula daquela escola carrancuda feita de ditadura militar em 1980. Tinha a impressão de que o prazer era algo preciosíssimo porque era raro, era uma vez por semana, era em gotas, em capítulos. Não era possível devorar histórias. Era preciso esperar. O que me emociona é pensar que eu, há uns dois anos, assisti pela TV, ao enterro dos restos mortais encontrados num estacionamento da Inglaterra, do Rei Ricardo, da Guerra das Rosas. Publicado no Brasil pela Paulinas.

2. O lobo e os sete cabritinhos, dos Irmãos Grimm

Uma das histórias mais impressionante com a qual tive contato. Lembro-me, aos cinco anos, minha mãe ler essa história (ou às vezes contar), toda noite antes de eu dormir. Todas as vezes eu me emocionava a ponto de chorar muito pelo perigo que corriam as crianças sem a companhia da mãe. Minha mãe , antes de começar a história, dizia pra eu não me esquecer que tudo acabava bem, apesar dos soluços e tropeços. Ainda assim, eu sofria e segurava sua mão num ato íntimo e de muita entrega. Das maravilhas que os livros e histórias nos proporcionam.

3. Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato

Minha mãe comprou uma coleção linda que hoje está com uma das minhas irmãs e que nos foi oferecida por um daqueles vendedores de livros que passavam de casa em casa. Eu me lembro de minha mãe estar trabalhando e só estarmos eu e minha irmã em casa. Ofereci bolo e um copo de leite ao homem que debaixo do terno quente, aceitou e me disse , com olhos esperançosos, que tudo era parcelado em até dez vezes. Liguei pra minha mãe e, quando pode, ela veio pra casa e fechou a compra. Passei dias, semanas, maravilhada com aquelas páginas só minhas. Atualmente, é publicado pela Globinho, selo da Globo Livros.

4. O segredo da casa amarela, de Giselda Laporta Nicolelis

Esse foi um livro obrigatório na escola. Eu não tinha tido uma boa experiência com O caso da borboleta Atíria, de Lúcia Machado de Almeida (Coleção Vaga-Lume, Editora Ática). Mas, pelo dinamismo e pelo mistério, lembro que não conseguir largar o livro e terminei antes de todos na sala, sendo assim, convidada a ajudar os colegas no trabalho de escola. Atualmente, é publicado pela editora Saraiva.

5. Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos

Fiquei muito tocada por esse livro quando o li. Devia ter uns dez anos e mesclava histórias que o meu pai contava das suas dificuldades de menino numa família numerosa, como a do Zezé. Atualmente, é publicado pela Melhoramentos.

6. Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll

Um mundo dentro de outro e dentro de outro e dentro de outro. Aquele labirinto mágico, estranho e absurdo me fascinava pela riqueza de personagens e pela falta de propósito.

7. O amante, de Marguerite Duras

Aos catorze anos, eu frequentava muito a biblioteca municipal. Tinha um livro que eu queria muito ler, mas era impróprio e se chamava O amante. Por isso, me foi imposto O alquimista, de Paulo Coelho, e eu me lembro de não conseguir terminá-lo. Eu queria mesmo ler era o livro de Duras. Minha irmã mais velha conseguiu pegá-lo emprestado e fiquei completamente seduzida pela história. Passei por um período sonhando em namorar algum oriental e recriar aquelas cenas todas no Rio Pomba que passa em Guarani [cidade mineira onde Nara Vidal nasceu e cresceu]. Existem diferentes traduções e publicações no Brasil.

8. Cem anos de solidão, de Gael Garcia Márquez

Puxa… perdi sono por conta desse romance. Impressionou-me muito, a ponto da minha mãe pedir ao bibliotecário que não me emprestasse mais livros como esse. Acredito que tenha havido uma identificação cultural muito impactante entre Macondo e Guarani, as superstições, o cenário mágico e fantástico, os personagens que caminham, apressando os passo debaixo dos chapéus de palha, para o nada aparente. Uma emoção. Publicado no Brasil pela Record.

9. O Diário de Anne Frank, de Anne Frank

Uma crise de choro ininterrupta. Chorei da mesma forma quando visitei sua casa na Holanda. Uma coisa, de fato, marcante e tristíssima. Atualmente, é publicado no Brasil pela editora Record.

10. Médicos Malditos, de Christian Bernadac

Depois de ler O Diário de Anne Frank, me lembro de mergulhar em assuntos relacionados ao nazismo. Esse livro me chocou por razões óbvias. A mais apavorante foi descobrir, mais tarde, que Monteiro Lobato tinha sido um dos entusiastas da eugenia no Brasil. Publicado no Brasil pela Otto Pierre Editores.


 

Stephanie Borges

1. Você é minha mãe?, de Alison Bechdel

Após a leitura da graphic novel Fun Home, a mãe da autora critica a abordagaem de Bechdel sobre a família. A reação da mãe da autora para refletir sobre a relação das duas e a possibilidades e os limites de escrever sobre as pessoas que amamos. Bechdel dialoga com D.W. Winicott e Virginia Woolf e em suas reflexões sobre a arte, laços familiares e como nossas visões se alteram com a experiência e passagem do tempo. Publicado no Brasil pelo Quadrinhos na Cia, selo da Companhia das Letras.

2. Hunger makes me a modern girl, de Carrie Brownstein

Além de roteirista e atriz na série Portlândia, Carrie Brownstein é guitarrista do Sleater-Kinney, uma banda de rock só de mulheres e integrante movimento Riot Grrrl. Carrie revista momentos marcantes de sua infância e adolescência, narra a história da banda e traça um percurso emocional sobre a importância de reconhecer as marcas do passado, lidar com elas e seguir com a vida e sua arte. Publicado pela Penguin Random House (ainda inédito no Brasil)

3. Diários II, de Susan Sontag

O segundo volume dos diários da escritora americana cobre os anos entre 1964 a 1980. Impressões de viagens, listas, ideias para ensaios e romances, questões sobre arte e política surgem entre as anotações de Sontag. Somos colocadas diante de uma leitora voraz, uma cinéfila, uma mulher desvendando as dinâmicas de seus afetos e relacionamentos. Uma leitura instigante, da qual saímos com novas referências e percebemos a construção de uma trajetória intelectual impressionante. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

4. Só garotos, de Patti Smith

As memórias da juventude de Patti Smith expõe sua relação com a poesia, sua vida em Nova York e sua relação com Robert Mapplethorpe, que começa com um romance e se transforma amizade e colaboração artísticas. A poesia de Rimbaud, a potência do rock, o diálogo com as artes visuais e as memórias da convivência no Hotel Chelsea são um convite a mergulhar nas canções da artista. Publicado pela Companhia das Letras.

5. Hoje é o último dia do resto de sua vida, de Ulli Lust

Uma jovem punk alemã decide viajar de carona com uma amiga para passar o verão na Itália. No entanto, se o espírito aventureiro não tem gênero, duas meninas estão frágeis na estrada tendo apenas uma a outra. O excesso de confiança e a ingenuidade as expõe à vários riscos, mas a estrada e verão italiano trazem duras lições sobre a importância de ter e ser uma boa amiga. Cheia de altos e baixos, a viagem é pontuada por paixões, falta de grana, improviso, malandragem e alegrias, mas chega a hora de lidar com as consequências. Um relato em quadrinhos de uma experiência transformadora. Publicado no Brasil pela editora Martins Fontes.

6. A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

Svetlana costura as memórias de mulheres que participaram da linha de frente da Segunda Guerra Mundial com seu próprio diário, refletindo sobre a escolha dos relatos e a resistência para a publicação do livro. Franco-atiradoras, tanquistas e engenheiras falam de sua contribuição na luta soviética contra os alemães, o machismo no front e o silenciamento de suas conquistas. Enfermeiras, lavadeiras e cozinheiras revelam a importância de sua presença e o impacto da guerra em suas vidas. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

7. A história secreta da Mulher-Maravilha, de Jill Lepore

Usando as biografias William Marston, Elizabeth Holloway e Olive Byrne, Jill Lepore estabelece o contexto e as referências que influenciaram a criação da Mulher Maravilha. Lutas feministas como o direito ao voto e a descriminalização dos métodos contraceptivos se misturam com os primórdios da psicologia, arranjos poliamorosos e fetiches. As muitas contradições por trás da princesa Diana de Themiscira expõe como ela surgiu e se mantém como uma das figuras femininas mais poderosas da cultura pop. Publicado no Brasil pela editora Record.

8. Duas Vidas — Gertrude e Alice, de Janet Malcolm

Gertrude Stein e Alice B. Toklas são um do casais que marcaram a literatura. No entanto, guardamos as imagens das duas registradas por Stein em A autobiografia de Alice Toklas e Autobiografia de todo mundo, sem nos perguntamos o que aconteceu com duas senhorinhas lésbicas e judias quando os nazistas invadiram a França. Querendo descobrir como as duas sobreviveram à ocupação alemã, Malcom debate as influências da datilografia de Toklas na escrita de Stein, tensões, ciúmes e como Alice se manteve após a morte da esposa. Publicado no Brasil pela editora Paz e Terra.

9.Where the heart beats: John Cage, zen buddhism, and the inner life of artists, de Kay Larson

A biografia do músico experimental John Cage estabelece várias relações entre o zen budismo, as artes plásticas, a música e dança ao longo do século 20. Cage realizou várias experimentações ao longo de seus trabalhos e ao descobrir o zenbudismo decidiu incorporar o ruído e o princípio da incerteza em suas composições. A biografia apresenta seus diálogos com diversos artistas e linguagens em sua busca por uma produção artística desassociada do ego. Publicado pela Peguin Random House (ainda inédito no Brasil).

10. Sonhos em tempo de guerra — Memórias de infância, de Ngugi Wa Thiong’o

O primeiro volume da autobiografia do escritor queniano mistura brincadeiras infantis e reflexões sobre o cenário político da época. Seu encantamento com as histórias, os esforços de sua mãe para que ele pudesse estudar e as transformações com a chegada dos homens brancos. As disputas entre africanos e colonizadores fazem parte memória do professor e ativista e perseguido pelo governo queniano por ter sido um dos primeiros autores a se recusar a publicar em inglês como resistência ao colonialismo. Publicado no Brasil pela Biblioteca Azul (selo da Globo Livros).


 

Taís Bravo

  1. A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath

Publicado em 1963 sob o pseudônimo de Victoria Lucas, A Redoma de Vidro, pode ser lido como uma experiência de autoficção na qual a literatura se mostra como um modo de reescrever e ressignifcar a vida. A narrativa de Esther Greenwood é sobre se lançar no mundo e se encontrar, de repente, sem referências, valores e desejos concretos. É muito sobre o que significa crescer, ser uma mulher jovem a caminho de uma vida adulta, tateando um chão próprio ou uma verdade que seja possível. Descobri esse livro aos 18 anos e quase dez anos depois ainda carrego essa história como uma parte de quem sou. Publicado no Brasil pela Biblioteca Azul, selo da Globo Livros.

2. Warsan versus Melancholy (the seven stages of being lonely), de Warsan Shire

Nesse audiolivro, Warsan Shire atravessa uma desilusão amorosa expondo em 7 poemas como a perda de um amor pode significar a perda de si mesma. Assim, o trabalho do luto é um exercício de escrita e um modo de se auto questionar, se recriar. A voz de Shire acolhe a todos que carregam a memória de um término.

3. As Lendas de Dandara, de Jarid Arraes

Um livro bonito, forte e necessário que reconta a vida da guerreira Dandara de Palmares. Dentro do contexto de nosso país em que a memória histórica ainda é construída a partir da perspectiva européia, ou seja, daqueles que nos colonizaram, a obra de Jarid Arraes é de uma resistência urgente. Ilustrações de Aline Valek. A primeira edição foi publicada de maneira independente, as demais saíram pela editora Cultura.

4. Insubmissas lágrimas de mulheres, Conceição Evaristo

Nesse livro, Conceição Evaristo traça a sua escrevivência a partir das memórias de 13 mulheres. Não é possível definir se esse é um livro de contos, ou seja de ficção, ou de relatos biográficos. A literatura aqui parece desbravar um novo gênero em que a memória coletiva é expressa de um modo radical na singularidade de cada uma dessas mulheres. Publicado pela Malê Edições.

5. Parafusos: Mania, depressão, Michelangelo e eu, de Ellen Forney

Livro de memórias em quadrinhos de Ellen Forney que aborda, de um modo honesto e sensível, a relação entre criatividade e limites psíquicos. Forney elabora uma pesquisa através de sua experiência pessoal e da vida de outros artistas para questionar a associação entre loucura e a arte a partir de uma perspectiva mais materialista e menos romantizada. As perguntas que formam esse trajeto talvez sejam mais importantes do que uma possível conclusão. Uma leitura que foi fundamental para que eu pensasse sobre as condições que envolvem meu trabalho artístico e minha saúde mental. Publicado no Brasil pela Martins Fontes.

6. Memórias de uma moça bem comportada, de Simone de Beauvoir

Embora Beauvoir seja muito conhecida por seu trabalho acadêmico e filosófico, são seus contos e memórias que mais me agradam. Nesse livro, temos acesso a sua juventude, o encontro com a filosofia e o início de seu rompimento com as expectativas sociais. Uma leitura que tem o gosto das primeiras descobertas. A edição brasileira mais recente é da Nova Fronteira.

7. Infiel, de Ayaan Hirsi Ali

Ayaan Hirsi Ali tinha apenas 37 anos quando escreveu “Infiel”, uma idade que parece ser consideravelmente precoce para compor uma autobiografia. No seu caso, no entanto, 37 anos guardam experiências de transformação e luta. Reconhecida como uma das mulheres mais influentes no mundo, Ali narra suas memórias desde a infância e os impactos do islamismo fundamentalista em sua vida até sua trajetória enquanto militante em defesa das mulheres muçulmanas. Infiel amplia o modo como pensamos o mundo. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

8. Quando me descobri negra, de Bianca Santana

Um livro breve e de linguagem acessível que demanda uma longa e delicada digestão. Quando me descobri negra se divide em três partes — “Do que vivi”, “Do que ouvi” e “Do que pari” —  na quais a autora entrelaça vivências pessoais, memórias biográficas e ficção para compor uma nova forma de se pensar e criar a memória de nosso país no que diz respeito à identidade racial. Publicado pela editoria SESI-SP.

9. Linha M, de Patti Smith

Melancólico, nostálgico e, ao mesmo tempo, libertador esse livro nos leva até uma temporalidade muito particular que só Patti Smith parece ser capaz de viver e compartilhar. Em cada ensaio, Smith mistura passado e presente em uma narrativa que amplia a vida para algo que vai muito além da linearidade que, tantas vezes, inutilmente, traçamos ou esperamos. Uma criação que nos faz ocupar a história livre de ponteiros em um tempo onde todos os eventos podem se reencontrar. Publicado pela Companhia das Letras.

10. Bordados, de Marjane Satrapi

Nesse livro delicioso, Marjane Satrapi, autora de Persépolis, se debruça sobre uma tradição familiar, o samovar, o chá do meio-dia e da noite, que reúne as mulheres em um ritual diário e privado no qual podiam conversar livremente. Ela narra as histórias das mulheres de sua família com um olhar bem-humorado, feminista e provocador. Por meio do traço de Satrapi, as vidas e resistências femininas que acontecem de um modo quase invisível ganham voz e se tornam públicas.Dos livros para devorar em uma tarde e levar pra vida toda. Publicado pelo Quadrinhos na Cia, selo da Companhia das Letras.


Ilustração de Carolina Nazatto.

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